Pérola

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domingo, 3 de fevereiro de 2013

Leitura actualizada

Done Norwegian Wood. Civilização Editora, 2004.
  • Sputnik, meu amor. Casa das Letras, 2005. OBS.: esgotado, não consta mais no site da editora
  • Done Kafka à beira-mar. Casa das Letras, 2006.
  • Crónica do pássaro de corda. Casa das Letras, 2006.
  • Underground - O atentado de Tóquio e a mentalidade japonesa.Tinta da China, 2006.
  • Done Em busca do Carneiro Selvagem. Casa das Letras, 2007.
  • Done Dança, dança, dança. Casa das Letras, 2007.
  • DoneA rapariga que inventou um sonho . Casa das Letras, 2008.
  • Done After Dark - Os passageiros da noite. Casa das Letras, 2008.
  • Done A sul da fronteira, a oeste do sol . Casa das Letras, 2009.
  • Done O elefante evapora-se. Casa das Letras, 2010.
  • Done Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo. Casa das Letras, 2009.
  • Done 1Q84, vol. 1. Casa das Letras.
  • Em Execução 1Q84, vol. 2. Casa das Letras
  • Estacionado na prateleira 1Q84, vol. 3. Casa das Letras
  • quinta-feira, 4 de outubro de 2012

    A minha lista

      • Done Norwegian Wood. Civilização Editora, 2004.
      • Sputnik, meu amor. Casa das Letras, 2005. OBS.: esgotado, não consta mais no site da editora
      • Done Kafka à beira-mar. Casa das Letras, 2006.
      • Crónica do pássaro de corda. Casa das Letras, 2006.
      • Underground - O atentado de Tóquio e a mentalidade japonesa.Tinta da China, 2006.
      • Done Em busca do Carneiro Selvagem. Casa das Letras, 2007.
      • Done Dança, dança, dança. Casa das Letras, 2007.
      • DoneA rapariga que inventou um sonho . Casa das Letras, 2008.
      • Done After Dark - Os passageiros da noite. Casa das Letras, 2008.
      • Done A sul da fronteira, a oeste do sol . Casa das Letras, 2009.
      • Done O elefante evapora-se. Casa das Letras, 2010.
      • Done Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo. Casa das Letras, 2009.
      • Em Execução 1Q84, vol. 1. Casa das Letras.
      • Estacionado na prateleira 1Q84, vol. 2. Casa das Letras
      • Estacionado na prateleira 1Q84, vol. 3. Casa das Letras

    sábado, 29 de setembro de 2012

    (dos sonhos…)

    Foi então que acordei. A meu lado dormia o Homem de Gelo. Ele não faz barulho a dormir, como acontece com algo congelado e sem vida. Apesar disso, amo-o. Começo a chorar; as minhas lágrimas caem-me pela cara e molham as minhas faces. Ele acorda e aperta-me com força nos seus braços. «Tive um sonho mau», digo-lhe. Ele abana a cabeça devagarinho no escuro. «Foi apenas um sonho», diz-me em jeito de consolação. «Os sonhos vêm do passado, não do futuro. Não deixes que eles te dominem – deves ser tu a dominá-los. Compreendes?»

    O Homem de Gelo, “A Rapariga Que Inventou Um Sonho” – Haruki Murakami

    quinta-feira, 27 de setembro de 2012

    Fim da solidão

    Ao casar com ela, chegaram ao fim os dias de solidão na vida de Tony Takitani. Quando acordava de manhã, a primeira coisa que fazia era procurar com os olhos por ela.  Assim que a via, adormecia ao seu lado, sossegava então. Quando acontecia ela não estar ali, ficava inquieto e não descansava enquanto não percorria a casa toda à procura dela. Constituía uma sensação estranha, saber que não estava sozinho. O simples facto de ter passado a estar acompanhado perseguia-o como uma sombra e fazia-o recear a eventualidade de voltar a ficar só. Que fazer? Por vezes, esse medo levava a que acordasse envolto em suores frios. A cena repetiu-se no decorrer dos três primeiros meses de casamento. À medida que ele se habituou à sua nova vida e que a possibilidade de a mulher desaparecer começou a diminuir, os receios dissiparam-se aos poucos. Por fim, perdeu o medo e atirou-se de cabeça, decidido a gozar a sua nova e pacata vida em clima de felicidade conjugal.

    Tony Takitani, “A Rapariga Que Inventou Um Sonho” – Haruki Murakami

    segunda-feira, 9 de abril de 2012

    (Paciência de) Jó

    Agora mais a sério.

    O meu fim-de-semana alargado iniciou-se na quinta-feira. Por essa altura soltei as mãos das três tarefas de que me incumbi, na (vã) esperança de que o meu pedido de apoio/assistência me fosse concedido. no entanto, a pouco tempo da data necessária, ainda nada sucedeu. Admirada? Não…

    Cata-ventos. Quando a seta aponta para qualquer lado, desde que pareça favorável, todos seguem o vento. Quando o vento dá trabalho, ora porque nos despenteia, ora porque nos tolda a forma (ou ausência) do pensamento, desviamo-nos da corrente.

    Mas tratava-se do aniversário da cara-metade e prometi não tocar no portátil nesse dia, e (quase) consegui cumprir (pelo menos não foi a trabalho…).

    O dia começou com um atraso espectacular, acabei por ter de fazer de tarde o que deveria ter feito de manhã, o que obrigou a pobre gata a estender o período de jejum mais do que aquilo que eu esperava. No final, a operação correu bem e ela está como não a via há imenso tempo.

    Os planos para o jantar foram totalmente remodelados, remarcados para o dia seguinte (vai um…).

    Chegou a sexta-feira (que mais parecia Domingo) e lá se jantou, finalmente, num contexto já muito adulterado do inicialmente proposto (vão dois…).

    Sábado. Parece que ninguém nos deixa dormir em sossego. Malditos telemóveis e mais quem os inventou! Tarde de compras, jantar tardio… (vão três!).

    I’m (not) so sorry, but… a porra do Domingo é para mim (nós)!

    Dormir até que o corpo doa. Quando dói, é sinal de que são horas de alimentar o corpo. A seguir aterro no sofá e alimento a alma. Desta vez, “A Rapariga Que Inventou Um Sonho”, Murakami. Pequenos contos, entrecortados pelo doce dormitar de Domingo, entre um gole de água fresca e uma carícia felina.

    Rápido despertar, já a duas, para uma espécie de almoço tardio. Para a tarde reservou-se um lift na cozinha. Valeu a pena, sem qualquer dúvida.

    Depois… as coisas do costume. Um jantar ainda mais tardio do que o almoço e finalmente o sofá, acompanhado do portátil, da manta quente, do GTD, a cara-metade, o quarteto felino e… uma aranha a subir-me pelas pernas???

    segunda-feira, 12 de março de 2012

    Norwegian Wood

    “And when I awoke, I was alone, this bird had flown
    So I lit a fire, isn't it good, norwegian wood
    ”

    livraria3

    Poderia mais uma vez dizer que gostei, que devorei. Mas não chega…

    Não importa muito a sequência pela qual Murakami os escreveu. Importa que em cada um me surpreende.

    Este, no entanto, destacou-se de todos os outros que li. Não me deu o absurdo surreal do nosso quotidiano. Em vez disso deu-me acesso a memórias pessoais esquecidas algures dentro de mim. A perda. As perdas. A partida de alguém que não quer mais ficar.

    Parei a leitura um-sem número de vezes, para recompor a timeline que fazia a ponte leitura-memória.

    As recordações atropelavam-se, fiquei várias vezes presa a memórias adjacentes a cada partida, a cada perda.

    Há muito tempo que não lia um livro que me fizesse rir, sorrir, excitar, chorar, pensar…

    E ademais, gosto da forma como o autor consegue (sempre) mesclar as suas histórias com excelentes ”bandas sonoras” e mais ainda, o modo como sempre arranja forma de pelo menos um gato se enroscar “em quem” lê.

    quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

    Go, Smoo! Go!

    Para afastar acessos de mau olhado e de outras coisas (in)igualáveis, não há mesmo nada melhor do que mergulhar de cabeça (fria!) no trabalho.
    Hoje fui às compras, mais propriamente a uma livraria (é das poucas lojas que me cativam dentro de um Centro Comercial/Fórum/Whatever).
    A ideia inicial era comparar preços dos mesmos livros, na livraria e online. E adivinhe-se: ganhou a livraria.
    Ganhou no preço e ganhou na venda.
    Trouxe dois livros técnicos para me ajudar no planeamento das minhas sessões e ainda "ganhei" uma prenda "2-em-1".
    O olho vivo e atento da minha metade detectou na prateleira mais insuspeita um "livrinho" que me andava a fugir há imenso tempo: Norwegian Wood, de Murakami. E não é que era um pack? Murakami trazia nas suas costas Yates, Revolutionary Road. Por 10€? Venham eles!

     E ainda não comecei a ler o volume 1 do 1Q84...


    quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

    Querida: o que te apetece almoçar?

    Todos os dias o dilema é o mesmo: o que vou fazer para o almoço? O que vou fazer para o jantar?

    Esses dias terminaram!

    Hoje para o almoço estou a pensar fazer Coxa depilada bronzeada e para o jantar, Mexilhão na minissaia.

    (“Passou-se” – pensarão vocês…)

    Não, não me passei. São receitas genuínas de um livrinho impecável (OBRIGADA MARIE!!!).

    Adorei, a sério.

    PICT0948

    A minha passagem preferida:

    “Ao saber que este livro ia ser feito, alguém comentou com indignação: «Mas a autodiscriminação já chegou aí? Então os gays e as lésbicas não comem o mesmo que os ‘heteros’? Precisam de receitas só para eles?» (…) Entrando no jogo, a mesma pessoa, que é heterossexual, acrescentava: «A não ser no caso de se comerem uns aos outros ao jantar e em cima da mesa, aí já é diferente.»”.

    Adorei o livrinho, Marie. E o paninho… ui! É a minha cara, mesmo.

    (Dados da coisa:
    Título: Receitas de sedução para Gays e Lésbicas
    Autor: Bruno Horta
    Editora: www.ramiroleao.com)

    domingo, 4 de abril de 2010

    O silêncio nem sempre reflecte algo menos bom. É apenas isso. Silêncio...

    … e é tão, mas tão irritante quando nos bombardeiam com questões. “Porque estás tão calada? Não pareces tu…”, “O que se passa?”.

    A verdade é que não me apetece. Não me apetece comunicar. Quero apenas estar em silêncio. É essa a minha natureza. Calo-me e observo. Observo e penso. Penso e tiro conclusões.

    Pode parecer estranha a forma como por vezes me se(i)nto a observar, mas é isso que faço.

    E depois há as gentes. Cada vez tenho menos paciência para as gentes. Estou a tornar-me intolerante face às gentes e desisti de lhes mostrar o meu ponto de vista. Pérolas a porcos… Em vez disso, sorrio e viro as costas.

    E há mais. Mais coisas às quais estou a desenvolver defesas naturais.

    Ghflglgdphqwh qdr vrx qrupdo…

    segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

    Venha o próximo!

    Haruki Murakami...
    Sou fã, sem dúvida alguma.
    Terminei ontem de ler A Sul da Fronteira, A Oeste do Sol e achei o livro maravilhoso.
    Não são livros de leitura fácil. Não que tenham tramas demasiado complexas, nada disso. Apenas não são leituras para tomar de ânimo leve. Conheço pessoas que leram e não gostaram. Mas isso deve-se a não lerem nas entrelinhas, a não compreenderem determinados estados de espírito, determinados conceitos e não se abstrairem daquilo que conhecem como realidade.
    Compreendi no todo o final da história. Sei que muitas pessoas que conheço não compreenderiam.
    É uma história que recomendo a quem ama, a quem amou e principalmente a quem pensa que ama, tomando tudo como garantido e que pensa que o passado nunca nos trama em qualquer esquina...
    Os dias continuam de chuva e tinha prometido passar mais tempo nos braços do meu sofá, não foi?
    Então aqui está o próximo...

    domingo, 20 de dezembro de 2009

    Véspera de Natal... 2 anos depois

    Valeu bem a pena, todo o stress e a preocupação de entregar tudo a horas... LOL
    Puta que pariu!

    quarta-feira, 14 de outubro de 2009

    Leitura em dia

    Um conjunto vasto de circunstâncias, têm-me devolvido aos braços da leitura, prazer que estou a redescobrir.
    Para companhia nesta viagem, optei por A Sul da Fonteira, A Oeste do Sol, de Haruki Murakami.
    Vinha sossegada no comboio embrenhada na leitura, quando deparo comigo a rir:
    Izumi descobriu a minha história com a sua prima no fim de Janeiro, pouco depois de eu ter feito dezoito anos. Em Fevereiro passei com êxito os meus exames de acesso à universidade e, no final de Março, abandonei a cidade e fui para Tóquio. (...)
    No shinkansen, o comboio-bala a caminho de Tóquio, enquanto observava distraidamente a paisagem pela janela, pus-me a reflectir sobre mim mesmo - a pessoa que eu era. Fixei as minhas mãos pousadas sobre os joelhos e o meu rosto reflectido na vidraça. Quem é este tipo, afinal? Sempre gostava de saber. Pela primeira vez na minha vida, senti por mim uma profunda aversão. «Como pudeste fazer uma coisa destas?» Mas conhecia a resposta bem de mais. E sabia que se me voltasse a encontrar nas mesmas circunstâncias, voltaria a fazer o mesmo. Que é como quem diz, mentiria a Izumi e voltaria a ir para a cama com a prima dela. Mesmo que isso significasse feri-la cruelmente. Apesar de ser duro reconhecê-lo, era a pura verdade.
    (...)
    Enquanto a minha mulher estava grávida, tive algumas aventuras, mas nada sério. Nunca fui para a cama com uma mulher mais do que uma ou duas vezes. Pronto, confesso, três vezes. Para dizer a verdade, nem sequer tinha consciência clara de estar a ser infiel e Yukiko. Só queria fazer sexo com alguém, sem consequências, e com as minhas parceiras passava-se a mesmíssima coisa. (...)

    De facto, faz-me lembrar algumas pessoas...

    quinta-feira, 10 de setembro de 2009

    Gosto de ler....

    Não vou deixar que nada me estrague o bom humor! Está decidido, pronto.
    Aguentem-me!
    Tenho aproveitado as minhas "viagens" para pôr a leitura em dia.
    Tinha lá por casa alguns livros de porte modesto, daqueles que ainda conseguem caber dentro da mala e tenho aos poucos andado a lê-lo.
    Escolhi Patagónia Express, de Luis Sepúlveda.
    Juro que o comprei, sem grande fé, mas... estou a gostar. Tem aquelas linhas históricas, no caso concreto, história da América Latina, da qual pouco conheço, mas gosto do pormenor descrito.
    Outra vertente que também estou a apreciar, é o cru sentido de humor que a história encerra, senão vejamos:

    Não entenderam, não é?
    Pois...
    Comprem o livro, leiam-no.
    Vale a pena.
    Patagónia Express, Luis Sepúlveda
    Edições ASA



    sábado, 28 de março de 2009

    Versões actualizadas IV

    Houve obviamente uma troca na numeração (resquícios ou não do post do última dia, não interessa agora).
    Para me redimir, aqui fica o restante da colecção. :D




    sexta-feira, 27 de março de 2009

    quarta-feira, 25 de março de 2009

    Versões actualizadas II

    Aiii que nada é como dantes!






    terça-feira, 24 de março de 2009

    Versões actualizadas I

    A maior parte das pessoas da minha geração e da geração anterior lembra-se, com certeza, dos livros da Anita. Mais populares entre meninas do que meninos, foram ainda assim uma marca da nossa infância, a par com a Rua Sésamo, o Vitinho, os cromos dos Power Rangers, etc. Mas a Anita evoluiu: os livros da colecção serão agora reeditados com novos títulos e histórias completamente reescritas de forma a melhor retratarem a sociedade actual. Tomando a liberdade de divulgar esta notícia em primeira mão, aqui ficam os novos títulos dos livros da Anita:

    (Recebido por mail e sempre partilhado. Continua...)

    sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

    Malefícios do tabaco

    Quando referi que o ía começar a ler, nem sonhava que tipo de livro ía encontrar pela frente. Confesso que quando o recebi pelo correio, olhei para ele com os mesmos olhos desconfiados com que sempre olhei os meus livros escolares de biologia e saúde: de esguelha.
    Mas vindo o livro de onde veio, empreendi-me a lê-lo. E não estou de todo arrependida. Até o aconselho. Até já o acabei...
    Transcrevo um "caderno" em particular que na cama me fez rir a sério, em horas menos próprias para a leitura.
    Toda a escrita tem uma narração muito humana. Afinal, o Médico é também ele um Homem.
    Espero que gostem e que vos incentive a lê-lo.
    "Após a performance no teatro operatório, seguia-se a parada, que é como quem diz, a «visita» aos doentes. A minha enfermaria era de mulheres. Apendicites, colecistes, peritonites, enfim, doenças abdominais, em que o cirurgião deixava a marca, em barrigas diversas, novas e velhas, gordas e magras. A sua lavoura. Houve um médico americano, ilibado pelo Alzheimer, que num par de doentes a quem operou, deixou gravadas a navalha, na barriga da doente, as suas iniciais, como apaixonado na casca de uma árvore.
    O processo judicial foi de milhões, mas não pude deixar de sorrir ao reconhecer que tinha cumprido, graças à sua loucura, o desejo secreto dos meus colegas operadores. Mas voltemos à visita. Como espectáculo que se preze, terminava com fogo-de-artifício. O cirurgião era fumador, e a observação dos doentes passava-se de cigarro na boca, destapando compressas, pintando «Betadine», aspergindo lixívia, que tem, na boca dos médicos, e na alquimia, o nome sério de hipoclorito de sódio. E havia, é claro, o éter. Líquido vaporoso, inebriante, amigo do fogo. Acabado o cigarro, era a beata lançada, displicente, para o balde de pensos, onde se ía encontrar em esfusiante relação bombástica com o éter. Labaredas multicolores, estrondo de foguetes, e acorriam médicos, cirurgiões, enfermeiras e doentes, a virarem, de pronto, o balde do avesso, terminando o fogo-fátuo que todas as semanas abrilhantava a visita.
    (...)
    Trabalhava no laboratório de reprodução humana da Universidade de Columbia, e tinha uma relação previligiada com estes primatas, para quem era uma espécie de cartógrafo, a desenhar-lhes o mapa do cérebro, mais propriamente daquela parte do cérebro que faz unir macacos a macacas, em laços amorosos ainda que desprovidos de versos ou dias de S. Valentim. (...)
    A parte triste é que de vez em quando um dos animais tinha de ser «sacrificado». A verdade é que era necessário recolher da haste que une o cérebro a uma minúscula glândula, chefe de todas as glândulas, os sucos segregados, que determinam ritmos de ovários, folículos, ovulações. O caminho para o tesouro químico estava tapado pelo olho. Era preciso, por isso, colocar o bicho deitado de barriga para baixo, extrair-lhe o globo ocular, alargar o orifício de entrada para o cérebro, até se dar, de caras, com a dita haste. Um dia, a operação teve de ser interrompida. O cirurgião chamado de urgência para atender um humano deixou-me a mim, solitário, na companhia da símia adormecida, com ferro de inox saindo do olho. Cansei de fazer de baby-sitter, e decidi carregar na seringa e no anestésico, o tempo suficiente de uma cigarrada. Quando voltei, deparei-me com um espectáculo macabro.
    A macaca despertara, e, desobediente, saltara da mesa operatória e pulava entre armários, macas e microscópios, com o afastador cirúrgico emergindo da órbita. A partir desse momento, todos os primatas são iguais. Lancei-me com fúria num corpo a corpo diferente, lembrando as lições de Kobaiashi e o meu cinturão de judoca, até ter apreendido, com uma chave nipónica, no chão do bloco operatório a minha rival. Foi assim que o cirurgião nos veio encontrar. Homem e macaca abraçados. Perna em cima, membro em baixo, Tarzan científico, segurando uma chita que guinchava. Malefícios do tabaco."

    trecho de, Sinto Muito - Nuno Lobo Antunes
    Imagem retirada da internet

    domingo, 25 de janeiro de 2009

    Leitura em dia



    Ontem comecei a lê-lo. Bom, tecnicamente foi hoje. Seriam umas 4:30 da manhã quando me deitei e peguei nele. Primeiras impressões: passei o prefácio, a introdução e avancei uns quantos, não direi capítulos, mas cadernos, pois cada história ocupa no máximo três páginas.

    Já vejo alguns a torcer o nariz. Eu também o torceria se estivesse desse lado a ler isto mesmo. Quem me conhece razoavelmente bem sabe que não sou dada a tragédias e "ais", a romântismos e suspiros. Mas do que já li do livro, posso dizer que:

    • Não é nenhuma narrativa entediante de métodos e procedimentos médicos que ouvi um dia alguém atirar ao ar;

    • Li uma escrita tão clara e ao mesmo tempo tão pormenorizada, que dá ao livro uma dualidade específica: a leitura é leve e pesada... Leve pela simplicidade da escrita, pesada pelos sentimentos de sofrimento, as perdas, as vitórias.

    É...
    Estou a gostar. Boa dica, Larose!

    domingo, 21 de dezembro de 2008

    Sinto muito...

    Antes de mais, devo referir que o que vou a seguir relatar, é de sexta-feira...
    Na véspera tinha passado praticamente o dia todo fora, pois fui para Setúbal com a C. e de tarde acabei por ficar na loja.
    Por não ter estado, deixaram-me um aviso no correio, para ir à estação levantar um pacote.
    Eu já sabia que o pacote vinha da larose, tinha-me prometido uns vales de descontos para a comida do meu bichano, visto ela não os utilizar.
    "Mas espera aí... pacote?? A menos que sejam 500 vales de desconto, haviam de caber na caixa de correio..."
    De qualquer das formas, tinha de ir para aquelas bandas comprar fusíveis para arranjar o aquecedor por isso não faria qualquer desvio para ir aos correios, juntei as duas tarefas (sim, nós somos daquelas que tentamos arranjar antes de descartar e comprar novo. Tentamos poupar o planeta... E já agora: aquecedor a bombar!! Somos ou não miúdas espectaculares?)
    Entrei na estação, tirei senha: 615. Avanço para dentro e olho o placard: 564!
    Só podem estar a brincar... Não cabia tanta gente cá dentro.
    Tomo atenção ao placard e tente cuscar as senhas de quem se encontra por perto e, estava mesmo certo! Tinha mais de 50 pessoas à minha frente.
    "Eu mato-te, larose!!!!"
    Conto até 10, saio para fumar um cigarro e vou espreitando e a porcaria do placard nada de avançar. Foi então que entendi porque estava uma fulana cá fora, sentadinha no chão a apanhar sol, qual osga em manhã de inverno.
    Só vejo pessoas a entrar e nenhuma a sair já atendida. Os que saíam era para fumar, ou atender o telemóvel.
    Depois de dois cigarros tornei a entrar e estoicamente aguentei até à minha vez.
    Várias vezes me passou pela cabeça, como iria ralhar à larose, por me enviar os vales de desconto em correio registado, quando mos poderiam ter enfiado na caixa de correio e em vez de estar ali na estação uma hora e 10 minutos, poderia ter estado na esplanada a beber um café e morder o ambiente.
    Tentei abstrair-me e eis que dou comigo a captar sinais de todos os lados.
    Foi engraçado, senão reparem:
    - atrás de mim e à minha direita, parecia a sala de espera de um Centro de Saúde. Eram os bicos de papagaio de uma, as insónias da outra e mais (pseudo-)doenças que não consigo reproduzir.
    - no meio das doenças, crónicas ou não, reais ou nem por isso, entra de rompante um chinês, que meio atrapalhado olha a sua senha, olha o placard e segue disparado em direcção ao balcão 3.

    - Tem de tirar a senha A; a B não serve.

    Nessa altura, o chinês saca da outra mão, onde (tcharannn) tem a senha A...

    - Este número já foi chamado há 28 número satrás...

    Não esão bem a ver... O que se passou em seguida foi absolutamente hilariante. No balcão ao lado, a funcionária, e como perguntou e ninguém se opôs, começou a atendê-lo enquanto a rapariga que estava ao balcão ía preenchendo os registos.

    -Dê-me então o passaporte...

    Ele lá o entregou, a funcionária olhou para o passaporte, olhou para ele e perguntou: "Esta fotografia é sua?" - "Amigo. Amigo." Pronto, ok, já entendemos. A funcionária continua à procura dos elementos de que necessita, vê o nome no aviso dos correios, encontra esse mesmo nome no passaporte, mas...

    - Onde está a assinatura do seu amigo aqui no passaporte? Onde é que vocês assinam?
    Dele só ouviamos: "amigo, amigo".
    Já toda a estação ria, porque para ouvir um episódio destes, até os bicos de papagaio se calaram todos.
    Lá a funcionária o convenceu de qualquer coisa que já nem me recordo.
    Acabou de atender a rapariga q tinha ao balcão, e o placard começo, devagarinho, a avançar.
    Umas quantas senhas mais à frente, avançou uma mocinha plas minhas idades, com uma mão cheia de envelopes para expedir.
    Às tantas, ouço a mesma funcionária dizer-lhe:

    - Não é por ir enviar tudo para um apartado que não tem de pagar... Só se fosse enviar para uma remessa livre...

    Sem comentários...
    "aiii larose, larose...."
    Uns poucos números a seguir, o 615!! Oba! C'est moi!!
    Passam-me para a mão um envelope de todo o tamanho, braquinho e todo cravejado de selos (fazem ideia de há quanto tempo eu não via um selo?? Impressionante...)
    Agarrei no envelope, agarrei em mim e fui para casa.
    Depois de largar mala, botas e casaco, sentei à secretária e fui abrindo o envelope. Despejo-o na superfície da secretáia.
    Vejo deslizar a revistinha Miau, um desdobrável cheio de talões de desconto e um livro.
    Depois de 70 minutos a penar na estação dos correios, ri-me com o título...
    Sei que sentes e estás perdoada! Adorei!

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